Inspiradas pelo cinema dos criadores japoneses Akira Kurosawa e Kazuo Miyagawa, Laura e Clarissa Guerra, filhas de Patrícia Guerra e Paulo Coelho, da grife de moda Auá, criaram a coleção de inverno deste ano: Kabuki. Só que elas não são as únicas que pescaram essa ref das telonas. A identidade visual baseada em filmes já é notória nas mesas de criação de design gráfico, branding e packaging. Mas, nos últimos anos, o universo das marcas vem explorando cada vez mais a riqueza estética e narrativa da sétima arte. Inspirar-se em filmes não é ctrl C + ctrl V: é absorver tendências visuais, experimentações tipográficas, paletas de cores e storytelling para construir marcas conectadas com a cultura contemporânea.
Neste artigo, vamos entender como a identidade visual baseada em filmes impacta na produção de marcas modernas, com exemplos relevantes e análise de estética, narrativa, estudos de mercado e tipografia.
O IMPACTO DA ESTÉTICA CINEMATOGRÁFICA NA IDENTIDADE VISUAL
A estética dos filmes é resultado de uma cuidadosa construção que envolve cenografia, iluminação, figurino, cores, entre outros elementos que parecem grudar na memória dos espectadores. Impossível não associar o estilo de John Travolta em Embalos de sábado à noite (1978), ou o de Uma Thurman em Pulp Fiction (1994) e Kill Bill (2003 e 2004), sem fazer uma associação imediata com criações de produtos para os mercados da moda, da beleza e até mesmo do design de interiores – inspirado nos filmes de Quentin Tarantino, a marca brasileira Fahrer criou uma linha composta por sofá, banco e poltrona.
Exemplos marcantes de estética visual de filmes nacionais e estrangeiros que influenciam marcas
Cidade de Deus (2002) – Realismo intenso e cores saturadas
Referência para projetos que buscam transmitir autenticidade e impacto social, a estética visual de Cidade de Deus utiliza cores saturadas, contrastes fortes e uma narrativa crua que expressa a vivência urbana, e influência no design de marcas de moda streetwear brasileiras.
Blade Runner 2049 (2017) – Retrofuturismo em movimento
Paleta de cores neon, atmosferas futuristas e visuais urbanos chuvosos inspiram marcas que exploram o retrofuturismo, aplicado em design de embalagens e websites.
Bacurau (2019) – Estética do sertão com surrealismo
Com uma combinação de realismo e elementos fantásticos, o filme cria uma identidade visual marcada por cores terrosas, texturas naturais e símbolos culturais do sertão nordestino. Conexão com marcas que bebem da fonte da cultura popular brasileira, usando texturas e paletas similares.
O Grande Hotel Budapeste (2014) – Pastelaria vintage
Uso de simetria, cores pastel e tipografia vintage que influenciam o branding, principalmente, em produtos artesanais e gourmet.
A NARRATIVA VISUAL CINEMATOGRÁFICA COMO INSPIRAÇÃO PARA BRANDING
Filmes são poderosas ferramentas para contar histórias. Ao basear identidades visuais em filmes, designers conseguem transportar narrativas e arquiteturas emocionais para as marcas.
Como isso fortalece a conexão emocional?
O espectador associa instantaneamente certos elementos visuais com emoções e narrativas. Ao usar essa semântica cinematográfica, a marca se beneficia ao criar uma experiência de consumo que vai além do produto: torna-se um convite para um universo simbólico que o cliente deseja fazer parte.
- Por exemplo, a marca de perfumes Dior usa narrativas visuais inspiradas em filmes e com estrelas do cinema e da música. Em 2024, foi a vez da cantora Rihanna estrelar a campanha do perfume J’Adore, com um filme publicitário que exala a estética do cinema.
- Já a Netflix, plataforma de streaming, utiliza elementos narrativos em seu branding, explorando tons e composições que evocam diferentes gêneros cinematográficos como suspense e drama criando uma identificação forte com seus usuários.
ESTUDOS DE MERCADO E COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR: A RAZÃO DO DIÁLOGO ENTRE CINEMA E DESIGN
Estudos indicam que consumidores, especialmente millennials e geração Z, valorizam marcas que sejam culturalmente relevantes e contadoras de histórias visuais com apelo emocional. O cinema é uma fonte rica e contemporânea dessa narrativa, com linguagens visuais e a experiência da coletividade. Tudo isso faz parte de um combo que vai além do refri + pipoca, uma vez que engloba o imaginário coletivo.
- Segundo a Nielsen, 75% dos jovens tendem a preferir marcas que dialogam com cultura pop e referências visuais familiares, como as do cinema e das séries.
- Outro filão: Grandes redes de cinema estão empregando uma variedade de tática de marketing para atrair consumidores mais jovens, como eventos temáticos, produtos colecionáveis e programas de fidelidade mais acessíveis, segundo reportagem publicada em 2024 no site Meio e Mensagem.
TIPOGRAFIA CINEMATOGRÁFICA: PROTAGONISMO NAS IDENTIDADES VISUAIS BASEADAS EM FILMES
A tipografia é um dos elementos mais poderosos usados no cinema para criar atmosfera e reforçar características de gênero, época e emoção que deseja provocar.
- Dos cartazes de filmes de terror a camisetas de bandas de rock, fontes quebradas e desconstruídas são comuns para induzir suspense, inspirando marcas que buscam transmitir tensão e suspense. Recentemente, Nosferatu (2024), uma nova versão do original de 1922, adota a mesma referência.
- Jack Daniels: a marca estadunidense de whisky, tradicionalmente incorpora elementos visuais que remetem ao sul dos EUA e à estética dos filmes de faroeste. Rótulos com tipografia manuscrita e serifada, detalhes em branco e preto que remetem a cartazes antigos, e campanhas que, frequentemente, mostram cenas de saloons, cavalos e ambientes rústicos
Marcas que baseiam sua identidade visual em filmes prezam por uma tipografia que garanta que a leitura e o impacto sejam condizentes com a narrativa escolhida para o happy ending.
CASOS BRASILEIROS: TIPOGRAFIAS DE MARCAS QUE DIALOGAM COM FILMES
- Rebranding do Canal Brasil feito pela agência Tátil + Globosat, com direção criativa da Plau Design. A tipografia da nova identidade é inspirada na história da tipografia brasileira no cinema, na arte e no design. Ela varia de forma orgânica, simbolizando a diversidade cultural do país.
- A Apple desenvolveu e utiliza a tipografia San Francisco, que é minimalista e funcional, inspirada em designs de filmes de ficção científica e futuristas.
- Coca-Cola: Para edições inspiradas em filmes clássicos ou franquias específicas, a marca já adaptou sua tipografia para remeter à época ou ao estilo visual do filme, fazendo uso de fontes vintage, cursivas ou retrô.
A IDENTIDADE VISUAL BASEADA EM FILMES COMO DIFERENCIAL COMPETITIVO
Incorporar referências visuais da sétima arte na construção da identidade de marcas permite explorar um repertório cultural vasto e de grande potencial de engajamento com o público. Essa prática conecta produtos e serviços a narrativas contemporâneas, criando diferenciação em mercados cada vez mais saturados.
Ao alinhar estética, narrativa, estudos de mercado e tipografia, os designers conseguem entregar projetos com profundidade cultural e impacto visual, construindo marcas que, assim como os bons filmes, sempre estarão na lista dos top 5.